Há hoje uma queixa freqüente vinculada, no mais das vezes, ao relacionamento amoroso e aparentemente as dificuldades nesse campo têm crescido exponencialmente. É natural também que o motivo inicial da procura de ajuda profissional seja apenas a ponta de um iceberg e, além do motivo alegado inicialmente, haja fatores desconhecidos e/ou inconscientes. As mudanças sociais das últimas décadas contribuíram significativamente para essa ocorrência e aqui cabe ressaltar que a sociedade não assume (e portanto não corrige) os efeitos dos aspectos sociais sobre a saúde emocional dos indivíduos. Falamos de uma síndrome inominada, base da doença emocional, e que é fator determinante na ocorrência de outras síndromes conhecidas e também dos mais variados comportamentos classificados normalmente como depressão. O lado positivo dessa moeda é conhecido como Pertinens, que é o ser parte de algo/alguém, e prefiro esse termo ao Pertença, por este nos permitir ligá-lo a pertencer. Pertinens, diferente de pertencer (Pertença) e nos coloca como parte de um conjunto. A debilidade ou ausência do sentimento de Pertinens não foi ainda nominada e vamos tratá-la aqui como sentimento de não-pertinens, para evitar o impertinens, análogo à impertinência cujo emprego usual é distinto do que estamos tratando. O sentimento de solidão é parte integrante do sentimento de não-pertinen mas não só ele. O vazio existencial, muitas vezes base da depressão – a doença do século -, o sentimento de alheamento, de ser diferente de todo-o-resto, o sentimento de ausência, de estar só e de que o mundo é algo estranho e, eventualmente, indesejado compõem muitas vezes quadros de irritabilidade, impulsividade, agressões e homicídios ou, por outro lado, de apatia, abandono de si mesmo e suicídio. O não-Pertinens pode estar também na base da síndrome do pânico principalmente quando sua insurgência se dá diante da possibilidade da perda de eventuais vínculos afetivos. Em “Cem anos de solidão”, Gabriel Garcia Marques, prêmio Nobel de literatura de 1982, mostra inúmeros ângulos da solidão através dos personagens e especialmente em Aureliano Buendia, podemos ver alguns aspectos do sentimento de não-Pertinens. O não ser reconhecido = não ser aceito:(Úrsula dizendo ao seu marido) – “Em vez de andar por ai com essas novidades malucas, você devia era se ocupar dos seus filhos – replicou – Olhe como estão, abandonados ao Deus dará, como os burros. Jose Arcádio Buendia tomou ao pé da letra as palavras da mulher. Olhou para a janela e viu os dois meninos descalços na horta ensolarada, e teve a impressão de que só naquele instante tinham começado a existir, concebidos pelos rogos de Úrsula.” O sentimento de Pertinens surge ainda no ventre materno através da voz da mãe e do seu estado emocional gerado pelos sentimentos positivos em relação à gravidez. Se desenvolve através dos vínculos positivos na família mas também na escola (professores e colegas). Parte do ser reconhecido e se fortalece no ser aceito.Comportamento: – “Aureliano, o primeiro ser humano que nasceu em Macondo, ia fazer seis anos em março. Era silencioso e retraído. Tinha chorado no ventre da mãe e nasceu com os olhos abertos. Enquanto lhe cortavam o umbigo movia a cabeça de um lado para o outro, reconhecendo as coisas do quarto, e examinava o rosto das pessoas com uma curiosidade sem assombro. Depois, indiferente aos que vinham conhecê-lo, manteve a atenção concentrada no teto de palmas, que parecia estar quase desabando sob a tremenda pressão da chuva.” O não-Pertinens compromete as relações eu-mundo fazendo surgir o sentimento de estranheza: o mundo é estranho e/ou eu sou diferente. 2.1 – Imaturidade emocional: – (Aureliano, já adulto, se apaixona por Remédios que tinha cerca de nove anos.) – “A imagem de Remédios, a filha mais nova do delegado, que pela idade poderia ser sua filha, ficou doendo em alguma parte de seu corpo. Era uma sensação física que quase o incomodava para andar, como uma pedrinha no sapato” … “Remédios se aproximou e fez algumas perguntas sobre o peixinho, que Aureliano não pôde responder devido a um repentino ataque de asma. Queria ficar para sempre junto desses olhos de esmeralda, muito perto dessa voz que a cada pergunta lhe dizia senhor com o mesmo respeito com que o dizia a seu pai.” (A primeira relação sexual de Aureliano, com Pilar Ternera, que tinha idade para ser sua mãe.) – “Venho dormir com a senhora – disse. Tinha a roupa manchada de lama e de vômito. … encontrou Remédios transformada num pântano sem horizontes, cheirando a animal cru e a roupa recém-passada a ferro. Quando boiou estava chorando. Primeiro foram soluços involuntários e entrecortados. Depois esvaziou num manancial desatado, sentindo que algo tumefato e doloroso tinha arrebentado no seu interior. Ela esperou, coçando-lhe a cabeça com a ponta dos dedos, até que seu corpo se desocupasse da matéria escura que não o deixava viver. Então Pilar Ternera lhe perguntou: “Quem é?” E Aureliano lhe disse. Ela deu a risada que em outros tempos espantava os pombos e que agora nem acordava as crianças. “você vai ter que acabar de criá-la”.” Reações – (Aureliano se casa com Remédios e esta morre deixando dois filhos; depois disso Aureliano se denomina Coronel Aureliano Buendia e faz uma guerra de vinte anos sem saber exatamente o por quê.) “Na terça-feira, à noite, numa operação tresloucada, vinte e um homens menores de trinta anos, chefiados por Aureliano Buendia, armados com facas de mesa e ferros afiados, tomaram de assalto a guarnição, apoderaram-se das armas e fuzilaram no pátio o capitão e os quatro soldados…” Aureliano tinha alcançado algo próximo ao sentimento de Pertinens através de Remédios. Com seu falecimento ele retornara ao não-Pertinens e a guerra era a forma como exercia sua raiva, através de supostas lutas por direitos, valores, justiça.– Herança – (As relações ocasionais durante a guerra geram filhos.) “Trouxeram crianças de todas as idades, de todas as cores, mas todos varões, e todos com um ar de solidão que não permitia pôr em dúvida o parentesco.” “Então o Coronel Aureliano Buendia tirou a tranca e viu na porta dezessete homens dos mais variados aspectos, de todos os tipos e cores, mas todos com um ar solitário que teria bastado para identificá-los em qualquer lugar da terra. Eram os seus filhos.”– Herança, reconstrução de vínculos ou sintoma da solidão – (Aureliano José – filho de Aureliano Buendia, e Pilar Ternera – a que poderia ser sua mãe -, e Amaranta, irmã de Aureliano Buendia) – “Aureliano José não podia conciliar o sono enquanto não escutava a valsa das doze no relógio da sala, e a madura donzela cuja pele começava a entristecer não tinha um só instante de sossego enquanto não sentia deslizar no mosquiteiro aquele sonâmbulo que ela tinha criado, sem pensar que seria um paliativo para a sua solidão. Então, não só dormiram juntos, nus, trocando carícias extenuantes, como também se perseguiam pelos cantos da casa e se fechavam nos quartos a qualquer hora, num permanente estado de exaltação sem alívio.” A literatura exemplifica e torna mais visível aspectos que a realidade dissimula. Por outro lado nos acostumamos a dizer que a Psicologia não é uma ciência exata e isso permite que pensemos erroneamente, que não há exatidão nela. Se não é possível operações aritméticas simples como o 2 + 2 = 4, a psicologia como a medicina, permitem equações do tipo a + b = x onde x representa uma gama conhecida de possibilidades (por exemplo, Aureliano Buendia, ao invés de se casar com a menina Remédios, poderia exercer sua pulsão através do abuso sexual de menores). Então determinadas ocorrências em determinados períodos da vida, tendem a dificultar a ocorrência do sentimento de Pertinens. A ausência desse sentimento tende, diante de determinadas ocorrências, a provocar instabilidade emocional que é prejudicial ao indivíduo e à sociedade. Dessa forma, tomando como base que a fragilização dos vínculos implica na redução do potencial de realização produtiva do indivíduo, deveríamos estar atentos à formação do indivíduo já que: quando os vínculos não existem desde o início, raramente a pessoa se desenvolve com alguma normalidade.quando os vínculos são rompidos na primeira infância, há o desenvolvimento de patologias graves.quando os vínculos são fragilizados na primeira infância, podem ser fortalecidos na escola, ou mais fragilizados ainda, ou mesmo rompidos.quando os vínculos são fragilizados na escola, podem ainda ser fortalecidos na vida adulta (vida conjugal/profissional). A riqueza do indivíduo, no entanto, permite que ele encontre alternativas de correção de aspectos indesejáveis. Poderíamos entender então que a paixão e o casamento de Aureliano com Remédios (itens 2.1 e 3, acima) podem significar sintomas de seu distúrbio mas, por outro lado, o vínculo que ele estabeleceu com Remédios conteve seus eventuais comportamentos destrutivos, mas vieram a ocorrer depois da morte desta. Somos instados pela natureza humana a recompor um intenso vínculo com nosso semelhante. O homem busca estabelecer com uma mulher um vínculo que se aproxime em intensidade, com aquele conhecido na vida intra-uterina. A mulher busca um homem para desenvolver esse mesmo vínculo, através da procriação. A sociedade atual, por seu lado, vem estimulando cada vez mais o individualismo e a gratificação no prazer. Estamos, então, diante de um descompasso – quase uma contradição – entre a demanda da natureza e os estímulos sociais, daí a emergência dos distúrbios de relacionamento. As dificuldades de relacionamento, por seu lado, facilitam o estabelecimento de sentimentos de não-Pertinens nos eventuais filhos desse relacionamento, o que cria uma bola-de-neve: a sociedade favorece o surgimento de distúrbios emocionais nos indivíduos e indivíduos com distúrbios emocionais desenvolvem uma sociedade mais doentia. O tratamento individual nos consultórios de psicologia atende ao interesse individual, mas não é capaz de conter o crescimento das disfunções conhecidas e das que ainda surgirão, com base nessa questão de vínculos, isto é, não é capaz de atender ao interesse da sociedade. Dessa forma a solidão, o sentimento de vazio e alheamento; o não-Pertinens, já não podem ser vistos apenas como distúrbios do indivíduo mas precisam ser tratados através de políticas públicas. Já temos instituída a prática dos exames pré-natais, para garantir a saúde física das crianças. Devemos agregar à essa prática, a orientação pré-natal (e pós-natal), para favorecer a saúde emocional do indivíduo (e a futura Saúde Social).